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No dia que se celebra o empreendedorismo feminino, a colunista Adri Coelho fala da premiada cineasta brasileira que mudou de carreira depois dos 50 e está prestes a lançar seu primeiro longa com equipe majoritariamente feminina.
Empreender, está no dicionário, é verbo transitivo, é decidir realizar (tarefa difícil e trabalhosa); tentar; pôr em execução; realizar. Logo, Carla Di Bonito, 59 anos, cearense, é uma empreendedora 50+. Começou a trabalhar com cinema aos 53 anos. Antes, experimentou muitas vidas nessa vida, casou, teve filhos, se divorciou, cuidou da mãe, adotou uma filha, se dividiu entre as duas gerações, se despediu de amores, viveu lutos, conquistas, aventuras, morou em diferentes cidades, estados e países…enquanto trabalhava como jornalista.
Agora, aos 56 anos, é aplaudida e premiada em festivais internacionais de cinema independente, antes mesmo de ‘rodar’ o seu primeiro longa metragem, chamado Nossos Caminhos. Pois sim, o filme ainda em formato de roteiro coleciona premiações. Em Cannes, durante o 8&HALFFILM, foi apresentado em uma leitura feita por Carla e pela atriz Dani Gondim. Levou o prêmio de ‘melhor roteiro internacional de longa metragem’ e ‘melhor roteirista original independente’.
Já tinha sido laureado no Wild Filmaker Awards de Berlim (melhor roteiro de longa-metragem internacional e melhor roteirista original independente) pelo Hollywood Indie Film Critics Awards (melhor roteiro de drama) e pelo British Film Critics Award (melhor roteiro internacional independente e melhor roteirista de cinema autoral). Nossos Caminhos tem mais prêmios do que os citados aqui. É autoral. Conta a história de Carla Di Bonito e das mulheres de sua família, compondo um retrato sensível de gerações de mulheres marcadas por afetos, escolhas e silêncios.
“Aborda questões culturais profundamente enraizadas e a necessidade de compreender quais devem ser preservadas e quais precisam ser rompidas. Carla e Luzinete, irmãs, com infâncias semelhantes, caminhos totalmente distintos, são centrais”, conta Carla. As atrizes Marcélia Cartaxo (da série Guerreiros Do Sol e do filme A Hora Da Estrela, para ficar entre um recente e um marcante do passado) e Hermila Guedes (O Agente Secreto e Céu de Suely) estão confirmadas no elenco. Daniela Gondim também. Mais de 80% da equipe de filmagem será composta por mulheres.
“Ao escrever este roteiro tive que ter muita coragem, tive que expulsar um exército de medos. O primeiro deles foi o medo de não ser capaz”, diz Carla. “Quando uma mulher de 50 anos decide mudar de rota, ela desafia não só o tempo, mas toda uma estrutura que dizia que era tarde demais”, completa. “A mulher 50+ virou tema, virou moda, mas nem sempre esse discurso é realidade. Na vida real, o caminho é bem diferente, é árduo: o mercado de trabalho continua excludente, o desejo ainda é medido por padrões jovens, e o envelhecer feminino segue cercado de silêncios e tabus. Mas tem uma revolução em curso. Há diferença entre o dia a dia e a vista na mídia, mas está diminuindo. E o que me emociona é ver que essa transformação não vem das telas, e sim da vida real, de mulheres que decidiram continuar recomeçando.”
Gostei disso que a Carla falou, “continuar recomeçando”. E você? Recomeçar é verbo e desejo presente quando o assunto é a atual mulher 50+, que é a minha vida, na própria pele, e também o meu trabalho há quase uma década. Escutar histórias como a de Carla, para mim, é como ouvir uma nova música cativante, empolgante. Simplesmente porque inspiram demais. “Reinventar-se depois dos 50 é um mergulho profundo, do qual me orgulho muito. Já não se trata de provar nada para o mundo e sim de reencontrar a si mesma”, conta ela.
É importante dizer que Carla não dormiu um dia jornalista e acordou cineasta em outro. Foi um processo longo, com um passo decisivo agora. “O cinema já vinha me chamando há tempos e eu achava que não era capaz. Ai, resolvi ceder à voz do coração”, detalha. Há 20 anos ela foi pra estudar edição na Escola Internacional de Santo Antonio de los Baños, em Cuba, e depois foi para Polônia, para um curso de direção. Voltou e fez o seu primeiro curta, Friday, Saturday e Sunday, que tinha Isabel Wilker no elenco. “Conta sobre um fim de semana na vida de uma família multicultural divorciada, vivendo em Londres, com um pai italiano e uma mãe brasileira. Não tinha orçamento. Chamei meus colegas da BBC Brasil para serem extras, usei a nossa redação como locação e, por sorte, encontrei a Isabel Wilker em um bar e ela aceitou fazer o que seria o meu papel.”
Em 2021, quinze anos depois, Carla lançou o curta Luzinete, um recorte do dia em que a irmã de Carla, Luzinete, perdia a vida para uma overdose. Foram mais de 220 prêmios e exibição em 44 países, além da indicação de Melhor Drama da Royal Television Society (Student Awards). “Um prêmio importantíssimo aqui no Reino Unido e que está, por assim dizer, no mesmo nível de um BAFTA”, conta a cineasta. Agora, aos 56 anos, Carla dá um passo maior, em direção ao seu primeiro longa, também parte autoral. O motivo? “Decidi estudar audiovisual aos 53 anos. Eu queria transformar uma dor muito profunda em algo que tocasse outras pessoas.” E assim é. Empreender é realizar e transformar, afinal. Eu deixo o meu viva para Carla Di Bonito. Vem junto?
Por
Adri Coelho